Caso Orelha: Conheça os três indicados por coação em Florianópolis

Foto: Jornal Razão

A morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, segue cercada por comoção, desinformação e versões conflitantes nas redes sociais. A investigação oficial, porém, já permite separar com clareza o que é fato e o que é fake no caso que chocou Santa Catarina e ganhou repercussão nacional.

O que é FATO, segundo a Polícia Civil e o laudo

A Polícia Civil de Santa Catarina confirmou ao Jornal Razão, de forma categórica, que Orelha não foi empalado vivo. A versão que circulou nas redes sociais foi classificada pelos investigadores como “fake news absurda”, sem qualquer respaldo em laudo pericial ou prova técnica.

Conforme o laudo clínico veterinário, Orelha apresentava lesão grave na região da cabeça, principalmente na face esquerda, com inchaço em grau grave, protusão do olho esquerdo, sangramento bucal e nasal e possíveis fraturas na mandíbula e no maxilar. O documento também descreve ataxia generalizada, dispneia e bradicardia.

De acordo com a investigação, a causa da morte do cão foram pancadas na cabeça, provocadas por instrumento contundente, compatíveis com objetos rígidos. O animal chegou a ser socorrido com vida e passou por procedimento básico de tentativa de reversão do quadro clínico, mas evoluiu a óbito.

As agressões ocorreram durante a madrugada do dia 3 para o dia 4 de janeiro, e o óbito foi confirmado no dia 5. A Polícia Civil foi oficialmente informada sobre o caso no dia 6 de janeiro.

Outro ponto esclarecido pela corporação é que não existe vídeo da morte de Orelha. A polícia afirma que nunca houve gravação feita por porteiro ou qualquer outro funcionário, contrariando versões que circularam amplamente na internet. O que existiu foi uma fotografia, posteriormente utilizada para auxiliar na identificação dos adolescentes investigados.

No caso Orelha, o Jornal Razão foi responsável por revelar a suspeição da juíza, a intimidação ao porteiro, a proibição da quebra de sigilo e outros detalhes exclusivos. E é assim que o Jornal Razão continuará agindo: junto à população catarinense, com coragem e responsabilidade.

Durante a apuração, mais de 20 adultos foram ouvidos. A Polícia Civil analisa mais de 72 horas de imagens de câmeras de monitoramento, provenientes de ao menos 14 equipamentos diferentes, o que representa cerca de mil horas de trabalho investigativo.

O que é FAKE

A versão de que Orelha teria sido “empalado vivo” surgiu após o portal Choquei utilizar um vídeo divulgado pela ativista Luisa Mell, gravado quando a apuração ainda estava em fase preliminar. Na gravação, ela afirma que “parece que o laudo é muito pior do que a gente já sabe” e menciona a hipótese de que um objeto de madeira teria sido introduzido no animal ainda vivo, alcançando a região da garganta.

A Polícia Civil afirma que isso não é verdade. O laudo não aponta empalamento, introdução de objeto ou qualquer lesão dessa natureza. Não há exame, indício técnico ou registro pericial que sustente essa narrativa.

A corporação reforça que apenas informações oficialmente confirmadas devem ser tratadas como fatos e que a divulgação de versões não checadas contribuiu para desinformação, aumento da tensão social e ataques indevidos a pessoas envolvidas no caso.

Adultos indiciados por coação e ameaça

A investigação avançou também sobre a atuação de familiares dos adolescentes investigados. Três adultos foram interrogados e indiciados por coação e ameaça a testemunhas:

André Zenha Wieliczka
Tony Marcos de Souza
Marcus Fernando da Silva

Um dos indiciados é advogado e dois são empresários. Segundo a Polícia Civil, eles teriam atuado para intimidar testemunhas e interferir no andamento das investigações.

Ameaças a testemunhas e clima de medo

Um dos episódios mais graves ocorreu na madrugada do dia 13 de janeiro, envolvendo um porteiro do condomínio Água Marinha. Segundo relatos colhidos pela investigação, o funcionário foi abordado de forma agressiva por familiares de adolescentes investigados.

Testemunhas relataram que um dos homens segurou firmemente o ombro do porteiro e disse:
“Tu sabe com quem tu tá falando?”

Quando o funcionário tentou pegar o celular para chamar a polícia, teria sido impedido com um gesto. Ao perceber um volume na cintura do agressor, compatível com o formato de uma arma, o trabalhador correu para dentro do condomínio em busca de segurança.

Moradores confirmaram o tom de ameaça e intimidação. Após o episódio, o funcionário foi afastado do trabalho, inicialmente com folga e depois com férias antecipadas, sob o argumento de preservar sua segurança diante da repercussão do caso


                     Nota de uma das famílias

Condutas anteriores e outro caso envolvendo animal
Segundo a Polícia Civil, os adolescentes investigados já haviam praticado outras condutas infracionais, mas não foi identificada participação em grupos organizados de tortura de animais.

Outro episódio apurado envolve um cão comunitário conhecido como Caramelo da Brava. Testemunhas relataram que o animal teria sido arremessado ao mar diversas vezes pelos mesmos adolescentes. Há vídeos em que eles aparecem com o cão no colo, mas as imagens são interrompidas. O animal conseguiu fugir e acabou sendo adotado dias depois.

Limites da responsabilização de adolescentes
Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, a pena máxima para atos infracionais cometidos por adolescentes é de até três anos de internação, medida considerada rara e aplicada apenas em casos extremos.

Enquanto os adolescentes seguem protegidos pelo ECA, os adultos agora enfrentam apuração criminal direta, com indiciamentos já formalizados.

O caso segue em andamento
A Polícia Civil afirma que a investigação continua e que novos desdobramentos ainda poderão serão divulgados. O Jornal Razão segue acompanhando o caso de forma permanente, com base exclusivamente em fatos confirmados, laudos oficiais e apuração própria.

Em meio à dor, à revolta e à comoção, a Polícia Civil reforça: informação falsa não faz justiça nem à memória de Orelha, nem à verdade.

Em meio à dor, à revolta e à comoção, a Polícia Civil reforça: informação falsa não faz justiça nem à memória de Orelha, nem à verdade.


                         Nota de outra das famílias

Os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte, que representam dois dos adolescentes pediram cautela e responsabilidade no compartilhamento de imagens e informações sobre o caso. Em nota divulgada nesta terça-feira (27), a defesa afirma que a exposição de menores de idade nas redes sociais viola o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tem alimentado um “linchamento virtual” contra os jovens e suas famílias.

Segundo os advogados, informações repassadas pela Polícia Civil em coletiva de imprensa realizada no mesmo dia reforçam que não há vídeo ou imagens que comprovem o momento das agressões contra o animal. A nota também destaca que os dois adolescentes defendidos por Kale e Duarte não aparecem em um vídeo que circula nas redes sociais mostrando um grupo de rapazes, material que, segundo os advogados, tem contribuído para a disseminação de desinformação, ameaças e ataques virtuais.

“A exposição irresponsável da identidade e da imagem dos jovens nas redes sociais – infringindo o que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – assim como de suas famílias, exige que se reitere a necessidade de que se cumpram os ritos formais do processo pelas autoridades competentes, se analisem as evidências concretas para que, então, sejam declarados e punidos os culpados”, afirmam, em nota.

A defesa pede que, em nome das famílias, a apuração siga o devido processo legal até a identificação e responsabilização dos culpados. Os advogados reiteram ainda que seguem colaborando com as autoridades para o esclarecimento do caso, que classificam como “um triste episódio”.


Fonte: JORNAL RAZÃO