Especialistas Alertam: Emagrecer Não Basta no Tratamento da Obesidade

Fotos: Divulgação/SES-DF

As canetas para obesidade abriram novas possibilidades para o tratamento dessa doença crônica, mas especialistas destacam que os resultados vão além dos quilos perdidos. Um novo consenso internacional publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology chama atenção para aspectos que precisam ser considerados durante o processo de emagrecimento, como a preservação da massa muscular, a saúde óssea, o estado nutricional e o bem-estar emocional.

Elaborado por três entidades europeias dedicadas à obesidade e à nutrição — Associação Europeia para o Estudo da Obesidade (EASO), Federação Europeia de Nutricionistas (EFAD) e Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade (ECPO) —, o documento reúne recomendações para profissionais que acompanham pacientes em tratamento com medicamentos à base de incretinas, como semaglutida (Ozempic e Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro).

“A obesidade não deve ser tratada como uma condição temporária a ser ‘corrigida’ com um ciclo de medicação. Assim como outras doenças crônicas, ela exige uma estratégia de longo prazo, com acompanhamento contínuo e um olhar para a pessoa como um todo, e não apenas para o número da balança”, explica Cynthia Valério, diretora e presidente eleita da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

É preciso observar diferentes aspectos da saúde para além do peso

A evolução do peso continua sendo acompanhada, mas deixa de ser o único parâmetro para avaliar o sucesso do tratamento. É preciso considerar diferentes dimensões da saúde, como estado nutricional, composição corporal e função física. Também entram nessa avaliação os aspectos psicológicos, o comportamento alimentar e a tolerância aos efeitos da medicação. Na prática, isso significa observar de que maneira o organismo como um todo está respondendo à perda de peso.

Sintomas gastrointestinais persistentes, redução excessiva da ingestão alimentar, alterações emocionais e sinais de perda de força ou funcionalidade devem ser identificados durante o acompanhamento.

A avaliação da saúde dos ossos também entra nesse processo. Isso porque a perda de peso pode estar associada à redução da massa óssea, principalmente em pacientes com maior risco de fragilidade, tornando importante monitorar esse aspecto ao longo do tratamento.

Vale lembrar que essas terapias podem trazer benefícios que vão além da redução de peso, como controle da glicose, redução do risco cardiovascular e melhora da apneia obstrutiva do sono e da doença hepática metabólica.

De olho na alimentação

A redução do apetite, um dos efeitos das medicações, pode diminuir a ingestão de nutrientes importantes. Por isso, a alimentação deve ser acompanhada para evitar deficiências de proteínas, vitaminas e minerais, por exemplo.

“O paciente precisa emagrecer, mas também receber os nutrientes necessários para manter a saúde. Não se trata apenas de comer menos, mas de garantir uma alimentação adequada durante todo o processo”, afirma Cynthia.

Entre as principais recomendações estão:

Valorizar as proteínas: a ingestão deve ser adequada para preservar a massa muscular, com recomendação de 1 a 1,5 g de proteína por quilo de peso corporal ajustado por dia, distribuída ao longo das refeições e com fontes de boa qualidade nutricional.

Manter uma alimentação equilibrada: a dieta deve ser planejada de forma individualizada, considerando a qualidade dos alimentos e a ingestão adequada de proteínas, fibras, vitaminas e minerais. Restrições calóricas muito intensas podem aumentar o risco de deficiências nutricionais, como falta de ferro, zinco, vitamina B12 e vitamina D.

Garantir fibras e líquidos: a redução no consumo alimentar e os efeitos gastrointestinais das medicações podem aumentar o risco de constipação. Por isso, é importante manter a ingestão adequada de fibras (cerca de 25 a 30 g por dia) e de líquidos, com ajustes conforme as necessidades individuais. Em geral, adultos precisam de cerca de 2 a 2,5 litros de água por dia.

O desafio de emagrecer sem perder músculos

Emagrecer não significa perder apenas gordura. Durante o tratamento, parte do peso eliminado pode vir da massa muscular, o que torna importante adotar estratégias para preservar força e funcionalidade.

“O emagrecimento ideal não é aquele em que o paciente simplesmente perde peso, mas em que ele reduz principalmente gordura e mantém o máximo possível de massa muscular”, destaca Cynthia.

O treinamento de resistência progressivo, como a musculação, é uma das principais estratégias para preservar a massa muscular durante o processo. O estímulo dos músculos ajuda a manter força e funcionalidade, aspectos importantes para a saúde e a autonomia, principalmente em idosos, pessoas com fragilidade, histórico de sarcopenia ou em casos de perda de peso rápida.

A relação com a comida também muda durante o tratamento

O consenso aponta que alguns pacientes podem enfrentar desafios psicológicos e de identidade associados à nova relação com a alimentação.

Afinal, frequentemente a comida está associada a conforto, recompensa e experiências sociais. Por isso, a redução do impulso alimentar pode exigir uma adaptação a uma nova rotina e ao desenvolvimento de estratégias para lidar com situações que antes estavam ligadas ao ato de comer.

“O controle desse impulso alimentar pode levar à redução da chamada ‘fome emocional’ e do ‘ruído alimentar’, que são os pensamentos constantes sobre comida, além de diminuir episódios de compulsão. Ao mesmo tempo, alguns pacientes podem vivenciar uma sensação de vazio ou precisar reconstruir aspectos da relação com a alimentação que faziam parte da sua rotina”, explica o endocrinologista Felipe Henning Gaia Duarte, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP).

O acompanhamento especializado deve observar sinais como tristeza persistente, ansiedade intensa, isolamento social, alterações de humor, sintomas de transtornos alimentares ou pensamentos de autolesão. Pessoas com histórico de ansiedade, depressão ou transtornos alimentares precisam de uma avaliação mais cuidadosa antes e durante o tratamento.

O cuidado envolve diferentes profissionais

O acompanhamento de pacientes em uso dessas medicações envolve diferentes profissionais, que contribuem para um cuidado mais completo durante o tratamento.


Entre eles estão:


Endocrinologista: participa da indicação da medicação, dos ajustes de dose e do acompanhamento clínico ao longo do tratamento.

Nutricionista: ajuda a planejar uma alimentação adequada, com atenção à ingestão de proteínas, fibras, vitaminas e minerais, além da prevenção de deficiências nutricionais.

Educadores físicos: contribuem para a preservação da massa muscular, da força e da funcionalidade durante o emagrecimento.

Psicólogos e psiquiatras: oferecem suporte relacionado ao comportamento alimentar, imagem corporal, ansiedade, depressão ou outros aspectos emocionais.

Geriatras: podem participar do cuidado de idosos ou pessoas com maior risco de fragilidade.

A interrupção da medicação precisa ser planejada

A decisão de reduzir a dose ou interromper essas medicações não deve ser tomada apenas porque o paciente atingiu determinado peso. Em muitos casos, a suspensão ou o ajuste sem planejamento podem contribuir para o reganho de peso.

“Os medicamentos fazem parte de um processo contínuo de cuidado. É necessário acompanhar o paciente ao longo do tempo, avaliando quando iniciar, ajustar a dose, pausar ou interromper o tratamento, sempre considerando os riscos e benefícios de cada decisão”, finaliza Duarte.


Fonte: JBr