Com os custos em alta e o El Niño muito forte batendo à porta, produtores dão início ao plantio da safra de soja 2026/27 em importantes regiões do país. Por ora, a expectativa é de mais uma colheita recorde, mas o cenário de incertezas, sobretudo em função do fenômeno climático, deixa os produtores receosos sobre o que esperar do novo ciclo. Diante disso, eles revisam estratégias para garantir um rendimento satisfatório.
Em Canoinhas, no norte de Santa Catarina, o agricultor Charles Breda diz que vai aumentar a área plantada em 7% neste ciclo 2026/27, atualmente em 1.400 hectares. A ampliação, safra após safra, é uma prática consolidada na propriedade, segundo ele. O cuidado com o solo também. E esse zelo será maior neste ano em razão do El Niño, que promete trazer uma temporada com chuvas acima da média na região Sul do país.
“Estou me preparando para a chegada do El Niño, fazendo bastante cobertura de solo, para não correr o risco de uma erosão com essas chuvas fortes que estão por vir. Também estou investindo na descompactação [do solo] para não deixar áreas alagadiças em caso de chuvas torrenciais. Isso deve ajudar a proteger as raízes das plantas, para não ficarem submersas”, detalha.
Além da preocupação com o clima, Charles Breda diz que os cuidados com o solo podem ajudar a melhorar a produtividade das lavouras. Isso, afirma o sojicutor, ameniza os impactos com os custos de produção.
“Vejo que a agricultura tem três pilares: custo, venda e produtividade. Mas o custo e a venda não estão no nosso controle. Então a produtividade é que vai nos sustentar num ano difícil como este, pois com alto rendimento, mesmo com preço mais baixo, conseguimos diluir o custo da nossa lavoura”, avalia.
Em Balsas, no Maranhão, o produtor Lucas Goulart afirma que o aumento das despesas impediu a ampliação da área de 12 mil hectares com soja na safra 2026/27. Segundo ele, os gastos com as lavouras cresceram principalmente em decorrência da alta dos adubos fosfatados.
A guerra no Oriente Médio fez os preços do insumo dobrarem neste ano, para US$ 800 a tonelada, o que obrigou o produtor a mudar o planejamento da semeadura para o novo ciclo.
“Decidimos não abrir algumas áreas este ano, justamente por causa [do preço] dos fosfatados. Nas áreas consolidadas, que são aquelas com boa correção de solo, vamos usar a reserva de adubo disponível. Depois de 20 anos, é a primeira vez que vamos usar essa reserva”, afirma ele.
A previsão de um El Niño forte mantém Goulart em alerta. Para o Matopiba (confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a expectativa é de que o fenômeno climático possa causar irregularidade nas chuvas, provocando períodos mais longos de seca durante as fases iniciais do plantio.
“Nossa produtividade hoje é de 70 sacas por hectare, mas ainda tem produtor na região que está obtendo 55 sacas, um patamar muito próximo do custo de produção. Imagine se, com essa produtividade mais baixa, houver uma frustração de safra, num cenário que já se desenha desafiador de custo alto e preço estabilizado?”, indaga o produtor.
Para Raphael Mandarino, diretor da AgResource Brasil, a nova safra de soja é a mais desafiadora já registrada no país. Isso porque, além de El Niño e de fatores como custo e preços, o crédito está mais caro para os produtores e as instituições financeiras mais restritivas. A AgResource projeta que plantio de soja deve alcançar 48,7 milhões de hectares, estável na comparação com a safra 2025/26.
“Teremos uma área estável, já que este é um ano em que o produtor não vai se arriscar. Ele precisa pagar as contas ou renegociar aquelas que estão em aberto”, argumenta Mandarino.
A despeito das incertezas que a nova temporada carrega, a AgResource, assim como a maioria das consultorias, vê potencial de safra recorde no país, com produção estimada de 184,1 milhões de toneladas, ou 2% a mais que no ciclo 2025/26. Com a área estável, o aumento da oferta deve ser puxado pelos ganhos de produtividade.
A StoneX também prevê uma colheita histórica de soja no Brasil, com 183,5 milhões de toneladas, incremento de 0,5% em relação à safra passada. Segundo a empresa, os produtores brasileiros devem semear 49,48 milhões de hectares, muito próximo dos 49,10 milhões plantados na temporada 2025/26.
Para Raphael Bulascoschi, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, por enquanto, a despeito dos temores relacionados ao El Niño, o clima não compromete o potencial esperado para 2026/27.
“Podemos ter algum atraso com o plantio nas regiões do Norte. Por lá, o clima está mais seco, porém, nessa região a semeadura ainda vai demorar. Por outro lado, em Mato Grosso, tivemos um regime de chuva favorável nos últimos dias. Os volumes ainda são insuficientes, mas são esperados novos episódios para este mês, portanto, não existe risco para a safra até o momento", afirma Bulascoschi.
Fonte: Globo Rural
Foto: Arquivo pessoal

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