‘Menino Santo’ afirma ter visto Nossa Senhora Aparecida e atrai fiéis em SC

Foto: Reprodução/Adalberto Day/Pedro Paulo

Um caso que marcou o Vale do Itajaí na década de 1950 voltou a ganhar força na memória da região, o episódio do chamado “Menino Santo”, em Blumenau, que afirmava ver aparições de Nossa Senhora Aparecida.

De acordo com o historiador e pesquisador Pedro Paulo de Oliveira Abreu, a história, que transformou um beco simples do bairro Garcia em ponto de peregrinação, começou quando o ‘Menino Santo’, Vilmar Schmidt, afirmou ter visto aparições de Nossa Senhora Aparecida sobre o telhado da própria casa, ao lado de um abacateiro.

Já conforme uma publicação do pesquisador independente, Adalberto Day, as aparições de Nossa Senhora Aparecida eram vistas quando “o menino subia ao telhado da residência (supostamente aparecia em um abacateiro ali existente)”, descreve o texto.

Curas, sinais divinos e milagres

O fenômeno rapidamente ultrapassou os limites de Blumenau. Em poucas semanas, moradores de cidades vizinhas e até de outros estados passaram a visitar o local.

Rumores de curas, sinais divinos e milagres começaram a circular, criando um movimento religioso espontâneo que cresceu sem qualquer estrutura ou liderança formal.

Conforme o texto de Adalberto, segundo as “seu pai, histórias a mim relatadas, tramou essa farsa, juntamente com sua esposa que era a principal articuladora do episódio, para se beneficiar monetariamente, conseguindo excelentes lucros

O historiador explica que o impacto social foi imediato.“Caminhões e ônibus chegavam carregando romeiros de todos os cantos de Santa Catarina. Fieis deixavam muletas, aparelhos ortopédicos e dinheiro como forma de agradecimento”, conta Pedro.

A pesquisa do historiador sobre o ‘Menino Santo’ ainda aponta que o local virou ponto conhecido e peregrinos passavam pelo local constantemente. Segundo ele a polícia chegou a registra 6 mil pessoas reunidas em um único dia.

“Elas esperavam uma suposta aparição anunciada. Para muitos, tratava-se de um milagre vivo. Para outros, um mistério que dividia opiniões”, diz Pedro.

Segundo ele, o ambiente da época, ainda fortemente rural e religioso, contribuiu para que o caso ganhasse proporções extraordinárias.

O centro das atenções do ‘Menino Santo’ em Blumenau

Com a expansão do movimento, também cresceram críticas e relatos de moradores do bairro Garcia. Abreu cita registros da época: “Moradores do bairro relatavam que nunca viram nenhuma aparição, e testemunhos de quem convivia com Vilmar começaram a apontar que tudo não passava de uma encenação organizada pela própria família, que lucrava com o movimento”.

Em uma das mensagens da publicação de Adalberto Day, a leitora, Alaíde Correia, afirma que o pai levou-a até a casa.

“Meu pai nos levou até lá, sob os protestos de minha mãe, totalmente cética, dizia que era tudo embuste. Havia um quarto onde as pessoas atiravam dinheiro, foi juntando muito dinheiro, o homem dizia que era para construir uma capela. Mais tarde o pai foi cortar o abacateiro e foi vendendo os pedaços dele, todo mundo avançando e querendo levar. Até que o homem se feriu seriamente com o machado, o sangue espirrando, assustando toda a gente que saiu fugindo e dizendo que era castigo de Deus… Só eu me lembro disso? Em 1954 eu teria seis anos de idade.”

O caso dos meninos de Ilhota

Entre tantos episódios, um ganhou destaque estadual, o dos dois garotos surdos-mudos levados de Ilhota ao Beco Tallmann. Nas palavras de Abreu, “as romarias ao Beco Tallmann não vinham apenas de Blumenau ou das cidades próximas. A história do Menino Santo correu por toda a região, e chegou até famílias simples que buscavam qualquer sinal de esperança.”

A visita dos meninos ao ‘Menino Santo’ era vista pelos devotos como um teste decisivo para comprovar os poderes do garoto.

Mas o resultado não atendeu às expectativas. “Apesar das rezas, dos rituais e da comoção ao redor do quarto onde Vilmar atendia, a verdade se impôs: os meninos de Ilhota não tiveram qualquer melhora”, revela a pesquisa de Pedro.

As reportagens da época reforçaram a frustração ao serem claras. “Não houve cura, progresso ou mudança no estado dos garotos”. E mais: “esse caso, mais do que qualquer outro, desmontava a crença popular na existência de milagres vinculados ao Menino Santo.”

Segundo o pesquisador, esse foi o ponto de virada. “Enquanto milhares continuavam acreditando, a experiência daquela família de Ilhota mostrava o lado mais doloroso de toda a história: o choque entre a fé e a realidade.”

O aumento da desconfiança e o incômodo dos moradores culminaram na expulsão da família Schmidt. Abreu lembra: “A crescente pressão dos moradores, incomodados com o tumulto, com o comércio da fé e com a desconfiança geral, levou a um abaixo-assinado que resultou na expulsão da família Schmidt do bairro. Acusados de charlatanismo, mudaram-se para Curitiba por volta de 1956.”

De acordo com o texto de Adalberto, “no local foi erguida uma gruta próxima ao barranco, para os devotos pedirem através de oferendas, algum tipo de ajuda”.

A gruta construída por devotos ainda permaneceu por algum tempo, mas o movimento desapareceu gradualmente, diz o historiador.

Um legado de fé e desilusão
A pesquisa de Pedro revela que hoje o episódio permanece como um capítulo que revela muito sobre a sociedade catarinense da época. “O ‘Caso do Menino Santo’ permanece como uma lembrança viva da força da crença e da vulnerabilidade humana diante da esperança”, diz.

E conclui que “Ele revela também como a fé genuína pode ser explorada, e como histórias extraordinárias ganham força quando se misturam ao desespero e à falta de opções”, afirma Paulo.

Para ele, o episódio dos meninos de Ilhota resume o desenlace do caso: “Eles não foram curados. E foi essa constatação que ajudou a desmontar o mito.”

Fonte: ND+